O MASP inaugurou na semana passada a exposição "Modernismo em diálogo", uma mostra que ocupa o segundo andar do vão livre e reúne mais de cento e vinte obras entre pinturas, esculturas, documentos e instalações contemporâneas. A proposta da curadora Luísa Ferreira é ousada: em vez de repetir a narrativa canônica do movimento que nasceu com a Semana de Arte Moderna de 1922, ela coloca artistas vivos respondendo diretamente a Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Emiliano Di Cavalcanti e outros nomes que definiram a identidade visual do Brasil no século XX.
A entrada da mostra já sinaliza a intenção. O visitante é recebido por uma reprodução ampliada de "Abaporu" (1928), de Tarsila, mas logo à direita encontra uma instalação de Aline Motta que projeta sobre a tela imagens de arquivos familiares de imigrantes nordestinos. O contraste é deliberado: o modernismo tratou o Brasil como terra exótica e fértil; Motta pergunta quem ficou de fora dessa festa visual.
Curadoria que questiona o cânone
Luísa Ferreira, que também coordenou a revisão do acervo permanente do museu em 2024, diz que a exposição nasceu de uma inquietação simples. "Estudamos modernismo a vida inteira como se fosse um bloco homogêneo. Mas havia disputas, exclusões, artistas que nunca entraram nos livros." A mostra dedica uma sala inteira a Djanira da Motta e Silva, cuja obra figurativa e popular foi durante décadas marginalizada pelos críticos que preferiam a abstração de Lasar Segall.
Outra sala reúne documentos da Semana de 22 — cartas, manifestos, recortes de jornal — ao lado de comentários em áudio de pesquisadores contemporâneos. É possível ouvir a historiadora Lilia Schwarcz discutindo o papel de Oswald de Andrade como teórico e, logo em seguida, o artista paulistano Paulo Nazareth questionando a noção de "antropofagia" como estratégia de mercado global.
O modernismo não é passado fechado. É campo de batalha simbólico que ainda define quem pode pintar o Brasil.
Diálogos entre séculos
O coração da exposição está nas conversas visuais montadas pela curadora. "Operários", de Tarsila (1933), divide parede com uma série fotográfica de Tiago Sant'Ana que documenta trabalhadores negros em canteiros de obra em Salvador. A semelhança de paleta — tons de ocre, vermelho e cinza — é impressionante, mas o contexto mudou radicalmente: onde Tarsila via tipos sociais, Sant'Ana vê indivíduos com nome e história.
Na seção dedicada à paisagem, obras de Cândido Portinari dialogam com pinturas de Denilson Baniwa, artista indígena do povo Baniwa cuja poética visual desmonta a ideia romantizada de "natureza brasileira". Uma tela de Portinari mostra lavradores em campo aberto; Baniwa responde com uma floresta amazônica onde os troncos são formados por letras do alfabeto Nheengatu.
"Modernismo em diálogo" — MASP, Av. Paulista, 1578, São Paulo. De 8 de junho a 15 de setembro de 2026. Terça a domingo, 10h às 18h. Quintas até 20h. Ingresso: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia). Gratuito às terças.
Recepção e polêmica
A abertura reuniu cerca de oitocentas pessoas e gerou debate acalorado nas redes sociais. Críticos mais conservadores acusaram a curadoria de "reescrever a história" e de privilegiar artistas contemporâneos em detrimento dos mestres. Luísa rebate: "Ninguém está apagando Tarsila ou Portinari. Estamos perguntando o que fazer com esse legado hoje."
O público parece dividido, mas engajado. Na visita que fiz no sábado de manhã, grupos de estudantes de artes circulavam com cadernos de anotações, e uma fila se formou na sala de Denilson Baniwa. Uma professora de história da arte da PUC-SP, acompanhada de quinze alunos, dizia que a mostra era "finalmente um jeito de ensinar modernismo sem fossilizar o conteúdo".
Há falhas, claro. A sinalização entre salas confunde em alguns pontos, e a instalação sonora da seção de Di Cavalcanti compete com o áudio da sala ao lado. Mas esses são problemas de montagem que podem ser ajustados ao longo dos três meses de exposição.
Por que importa
O modernismo brasileiro é o movimento artístico mais ensinado e menos questionado nas escolas do país. Exposições como esta cumprem um papel que vai além da contemplação estética: provocam o visitante a pensar quem foi incluído na narrativa e quem foi deixado de lado. Em um momento em que museus brasileiros enfrentam cortes de verba e pressão política, o MASP aposta em uma programação que dialoga com o presente sem abrir mão do rigor acadêmico.
Se você tem uma tarde livre em São Paulo, vá. Caminhe devagar, leia as legendas, ouça os áudios. O modernismo não é passado fechado — e esta mostra demonstra, com clareza rara, que ainda tem muito a nos dizer sobre o Brasil que habitamos.
Atualizado em com informações de ingresso e horários.