Na sexta-feira passada, pouco depois das nove da noite, o som de um cavaquinho atravessou a Rua do Riachuelo e fez quem passava desacelerar o passo. Era a primeira roda de choro oficial no Bar do Zé, um dos botecos históricos da Lapa que ficou fechado durante dezoito meses de reforma urbana na região. O reencontro entre músicos e público tinha o clima de festa de família: abraços demorados, cerveja gelada e aquele silêncio respeitoso que só acontece quando alguém começa a improvisar um solo de bandolim.
A reforma, conduzida pela prefeitura em parceria com comerciantes locais, incluiu calçamento novo, iluminação LED e regras mais rígidas para casas noturnas. Muitos frequentadores temiam que o bairro perdesse a alma no processo — afinal, a Lapa sempre foi sinônimo de improviso, de encontro casual entre artistas consagrados e estudantes de música que chegam com caderno de partituras debaixo do braço. O que vimos na reabertura, porém, foi um cenário cautelosamente otimista.
O que mudou na região
Os trabalhos começaram em dezembro de 2024 e atingiram cerca de quarenta estabelecimentos entre a Rua do Riachuelo, a Rua Áurea e a Rua Joaquim Silva. Além da infraestrutura, a prefeitura exigiu adequação acústica e sistema de isolamento sonoro nos bares que funcionam até mais tarde. Para muitos donos, isso significou investimento alto num momento em que o setor ainda se recuperava dos efeitos da pandemia.
João Pedro Almeida, proprietário do Bar do Zé há vinte e três anos, conta que quase desistiu. "Fiquei seis meses pagando aluguel sem abrir as portas. Só consegui retomar porque a associação de comerciantes negociou linha de crédito com juros menores." Hoje, o bar tem capacidade para oitenta pessoas sentadas e uma pequena área externa onde a roda acontece às quintas e sextas.
Choro não é museu. É conversa viva entre gerações — e a Lapa sempre foi o melhor lugar para isso no Rio.
Veteranos e novatos dividem o palco
A programação dos primeiros quinze dias de reabertura foi montada pelo violonista Nélson Siqueira, 67 anos, que toca na região desde os anos 1980. Ele convidou nomes como a flautista Camila Rocha, 28, ganhadora do prêmio Visa Rumos Música em 2025, e o bandolinista Arthur Mendes, que lidera um coletivo de músicos negros dedicado a resgatar compositores esquecidos do choro carioca.
"A ideia é não fazer nostalgia vazia", explica Nélson. "Choro não é museu. É conversa viva entre gerações — e a Lapa sempre foi o melhor lugar para isso no Rio." Na estreia, o repertório oscilou entre clássicos de Pixinguinha e Jacob do Bandolim e composições inéditas de Arthur, que apresentou um choro em homenagem às mães de santo da região portuária.
Camila, que estudou na Escola de Música da UFRJ, diz que encontrou na Lapa o espaço que faltava na formação acadêmica. "Na universidade você aprende técnica. Aqui você aprende a ouvir, a entrar no swing do outro, a segurar o compasso quando o público vai junto." Ela se tornou presença fixa nas rodas de terça-feira no bar Vizinho, a duas quadras do Bar do Zé.
Programação confirmada para junho: Bar do Zé (qui e sex, 21h), Vizinho (ter, 20h30), Casa do Choro da Lapa (sáb, 17h, entrada gratuita até as 18h). Consulte as casas para confirmação de horários.
Público e perspectivas
O movimento na região ainda não voltou ao pico pré-reforma, mas os números são animadores. Segundo a associação de bares, a média de público na primeira semana ficou em sessenta e cinco por cento da capacidade — bem acima dos quarenta por cento temidos pelos comerciantes. Turistas estrangeiros reapareceram, atraídos por roteiros de música brasileira que incluem a Lapa como parada obrigatória.
Há desafios pela frente. O aluguel subiu em média vinte e dois por cento na região, e alguns estabelecimentos menores não resistiram. O Bar do Meio, conhecido por suas jam sessions de sexta, fechou as portas em março. Seu antigo proprietário, Seu Geraldo, agora toca como convidado nas rodas dos vizinhos. "Perdi o bar, mas não perdi a música", diz, antes de entrar com um choro de Benedito Lacerda.
Para quem ama música instrumental brasileira, o retorno das rodas é mais do que notícia de entretenimento: é sinal de que um pedaço da cidade recuperou seu ritmo. A Lapa não é perfeita — nunca foi. Mas naquela sexta-feira, com o bandolim cortando o ar úmido da noite carioca, parecia exatamente o lugar onde o choro deveria estar.
Atualizado em com programação de junho.